De "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?" a "Blade Runner", as diferenças entre o livro e filme

05.11.2019 | 08h15 - Atualizada em: 05.11.2019 | 09h32
Por Anna Rios
Harrison Ford protagoniza o longa "Blade Runner" (1982)

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Clássico de Ridley Scott é ambientado em uma visão distópica de novembro de 2019

São significativas as diferenças de superfície e forma que separam Do Androids Dream of Electric Sheep?, o romance de Philip K. Dick, de Blade Runner, o filme de Ridley Scott realizado em 1982, mas ambientado em novembro de 2019. No romance, que foi editado pela Rocco em 2007 como O Caçador de Androides, com 256 páginas e tradução de Ryta Vinagre, e pela Aleph em 2014 como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, com 272 páginas e tradução de Ronaldo Bressane (relançado em 2017, com uma edição comemorativa de 50 anos da obra), a história se passa não em um futuro decadente, superpopuloso e coberto de neon, e sim um mundo sombrio assolado por uma permanente chuva de pó radioativo, resultado de guerras atômicas recentes.

O planeta Terra de K. Dick é uma espécie de gueto reservado aos pobres e aos perdedores, poucos são os que ainda vivem no planeta radioativo e com a fauna quase extinta — razão por que a posse de animais de verdade é um luxo caro, algo também implícito no filme. Na edição original do livro, em 1968 (traduzida no Brasil pela primeira vez em 1983 pela Francisco Alves), a história se passava, textualmente, em 1992. Como 1992 chegou e se foi, as filhas de Dick, responsáveis pelo seu espólio, decidiram alterar o ano para 2021 (desta vez apenas no material paratextual, como orelha e contracapa) para que o livro não parecesse datado ou, pior, ultrapassado.

O número de fugitivos caçados por Rick Deckard também não é o mesmo. O caçador recebe a incumbência de recapturar seis de um grupo de oito androides — replicantes é um termo criado para o filme — fugitivos de Marte que já mataram um policial no momento em que o caso chega às mãos do caçador. No roteiro do filme, o número foi reduzido para cinco, um deles já neutralizado quando Deckard entra na história — e quando as câmeras começaram a rodar, pressões de orçamento limaram ainda mais um dos androides, ficando o número final em quatro: Roy (Rutger Hauer), Leon (Brion James), Pris (Darryl Hannah) e Zhora (Joanna Cassidy). Ainda assim, na edição original do filme, lançada há 30 anos, o letreiro inicial permanecia com a informação de que SEIS androides haviam fugido e que um havia sido destruído na chegada à Terra. Imagino que isso tenha sido corrigido em uma das vinte mil versões posteriores.

Os androides são escravizados em trabalhos que os humanos não poderiam realizar, como mineração em planetas de gravidade proibitiva para os terráqueos, e portanto a fuga não é injustificada, mas os humanoides do livro são mais frios, com menos “grandeza de alma”, digamos, do que as trágicas e belas figuras interpretadas por Darryl Hannah, Sean Young e, principalmente, Rutger Hauer. São mais truculentos e, por não entenderem os processos que regem as emoções humanas, não são hábeis em imitá-las — essa diferença é responsável, também, por um dos elementos de aparência mais aleatória do filme: o teste que determina se uma pessoa é ou não replicante, presente já na primeira cena. Chamado de Voight-Kampff, o teste funciona com base em reações emocionais automáticas visíveis na dilatação da pupila e em outros sinais fisiológicos, como afluxo de sangue ao rosto. Certas perguntas do exame (tiradas literalmente do livro e repetidas no filme) são de tal sorte que provocariam horror em um humano, mas não em um androide.

Por isso, inclusive, as perguntas parecem tão exóticas fora do contexto construído por K. Dick em seu mundo ficcional: no futuro do romance, os animais quase desapareceram do planeta Terra, como já dissemos. Ao mesmo tempo, houve a ascensão do mercerismo, uma nova religião que substituiu o cristianismo. Em vez de Cristo, no futuro de Dick as pessoas cultuam o sacrifício de William Mercer, martirizado por motivos não muito claros, apedrejado enquanto tentava subir uma colina. Em vez de “rezar”, os terráqueos conectam-se a uma “caixa de empatia”, um dispositivo de realidade virtual no qual o fiel vivencia em primeira pessoa o martírio de Mercer, sofrendo na carne as pedras jogadas contra o homem santo.

Como Mercer ama tudo o que é vivo, os animais, cada vez mais raros, tornaram-se sagrados. Animais vivos tornam-se, então, símbolos de status. Ter um animal em casa é como um ritual fundamental para o mercerismo, mas a maioria deles não existe mais, logo, os mais pobres fazem o que podem com réplicas robóticas (daí a aparentemente enigmática referência a “ovelhas elétricas” no título). Um dos motivos que levam Deckard, no livro, a aceitar a contragosto a missão de eliminar os replicantes fugitivos é justamente o valor da recompensa, que ele pretende usar para realizar o desejo de sua mulher (sim, ele é casado, voltaremos a isso) de ter uma ovelha de verdade (com a recompensa ele acaba comprando um bode). Portanto, no universo do romance, as perguntas reveladoras têm a ver com animais, e foram transplantadas para o filme: o questionário do início sobre se Leon ajudaria um cágado virado com o casco para baixo no deserto, as questões que Deckard formula a Rachael sobre a posse de uma carteira de couro de crocodilo legítimo ou sobre uma coleção de borboletas. Isso nunca comprometeu o entendimento do filme, claro, é apenas uma amostra de o quanto o enredo do livro é mais complexo e cheio de camadas.

E sim, há Rachael (Sean Young), e a sua linha narrativa é mais ou menos a mesma do filme: ela trabalha na poderosa corporação Tyrell e é uma replicante. Mas o fato de ela não saber de sua condição artificial é uma sacada que aumenta a dramaticidade do filme, mas não existe no livro. Rachael sabe o que é: uma androide feminina atraente anteriormente usada como escrava sexual — e enviada a Deckard com um propósito obscuro que está longe da atração que ela sente pelo detetive no filme. O Deckard do livro é um homem derrotado de meia idade, sem o glamour jovem do galã Harrison Ford. Se o filme se encerrava com um tom otimista (que, depois veio a se saber, era imposição dos produtores, e não de Ridley Scott, cuja “versão autoral” interrompe a história uma cena antes), o livro é melancólico, triste e desencantado, investigando por que o avanço tecnológico do tempo descrito não ajuda os homens a desenvolverem a empatia que é justamente a mais humana das características (uma das androides no livro chega a dizer que considera a compaixão humana a característica mais misteriosa e interessante da espécie).

Edição comemorativa de 50 anos do livro de Philip K. DickFoto: Divulgação

Em uma coisa, no entanto, tanto o filme quanto o livro se assemelham: no olhar original que lançam aos clichês da história de mistério. O personagem de Dick é um ex-policial e caçador de recompensas empenhado na busca de um grupo de fugitivos. Como outros detetives dos livros do autor, contudo, as investigações de Deckard não revelam uma verdade que restabelece a ordem, como nos policiais convencionais, e sim algo que expõe as entranhas de uma realidade torta ou manipulada. Dick permanece atual no mundo contemporâneo porque sua ficção é visionária e seu texto tem o dom de mergulhar o leitor na atmosfera peculiar de cada livro. E talvez porque, ao contrário de grandes humanistas da ficção científica como Júlio Verne ou Isaac Asimov, Dick era um distópico. Onde Verne via progresso, ele via decadência. Onde Asimov via humanidade, ele vê paranoia e uma progressiva desumanização dos indivíduos.

E sempre foi mais fácil para os pessimistas preverem o futuro. 

Realidade alcança o futurista "Blade Runner"; relembre polêmicas do filme

Policial caçador de androides Rick Deckard, interpretado por Harrison FordFoto: Divulgação

Chegamos lá. O futuro projetado no filme Blade Runner – O Caçador de Androides está localizado exatamente neste novembro de 2019, numa Los Angeles sombria e chuvosa que reflete um apocalíptico cenário mundial.

Ainda não chegamos lá. Como bem sabemos, a distopia da ficção não se materializou, ainda. Carros voadores, clones humanos capazes de lembrar do que não viveram, colônias espaciais que servem de condomínio de luxo para os humanos que vivem numa Terra inóspita e degradada, entre outras especulações do amanhã feitas ontem, seguem no campo da possibilidade prática e da especulação teórica. Quem sabe em 2049, quando se passa a sequência da história (vista no filme lançado em 2017), imaginação e realidade entrem em sintonia, para nossa desgraça.

Blade Runner estreou nos cinemas em 1982 e foi ignorado por público e crítica. Mas não demorou para ressurgir como filme de culto, pioneiro de uma estética visual que marcaria as décadas seguintes — ainda hoje deslumbrante — e visionário na abordagem de temas científicos, éticos e sociais permanentemente em pauta.

O filme adapta — e para muitos fãs do gênero melhora — o romance de ficção científica Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick, lançado em 1968. O futuro do livro prospectava o ano de 1992 (trocado para 2021 nas reedições). Numa Terra arrasada por uma guerra atômica que deixou como saldo uma chuva tóxica que extinguiu quase a maioria dos animais, Rick Deckard, caçador de recompensas persegue um grupo de androides fugitivos.

O diretor inglês Ridley Scott assumiu o filme prestigiado por seu bom trabalho em Os Duelistas (1977) e Alien, o Oitavo Passageiro (1979) — tinha ainda laureado currículo na publicidade. A Hampton Fancher e David Webb Peoples é creditado o roteiro.

Blade Runner saiu do papel de forma bastante atribulada. Uma greve de roteiristas atrasou o projeto e as filmagens foram marcadas por disputas entre o genioso e perfeccionista Scott e seus financiadores, cada vez mais descontentes com os custos crescentes do orçamento e temerosos do risco de fracasso comercial daquele enredo com mais reflexão do que ação.

Roy e Pris, personagens dos atores Rutger Hauer e Darryl Hannah em "Blade Runner", de 1982Foto: Divulgação

Ao longo dos anos, a edições em VHS e DVD e os relançamentos nos cinemas colocaram Blade Runner no panteão dos melhores filmes de ficção científica do cinema e consagraram no imaginário popular sequências como o duelo final, quando, na iminência da morte, o replicante Roy, vivido por Rutger Hauer, faz o emocionante monólogo de exaltação à vida.

Em 1992, Scott lançou a sua versão do filme, alegando que a anterior havia sido imposta pelas produtores. Pelos menos quatro versões diferentes passaram a circular nas edições especiais em DVD e Blu-Ray. Essas quatro versões são, a rigor, duas. A original, de 1982 e a de Scott lançada em 1992 — esta foi renovada em 2007 como "o corte final", com melhoria de som e imagem e, mais significativo, com a correção de pelo menos duas falhas que acompanham a mitologia da obra.

A questão foi solucionada refazendo a cena da morte da replicante Zhora (Joanna Cassidy), na qual se percebia claramente o rosto da dublê. A outra foi finalmente refazer uma conta errada que por muito tempo intrigou os admiradores do filme. O roteiro original mencionava que seis replicantes haviam fugido de um planeta para a sombria Los Angeles de 2019. É mencionado que um já está morto quando o policial caçador de androides Rick Deckard (Harrison Ford) começa a perseguir quatro deles.

Com o orçamento e tempo estourados, pressão dos produtores e roteiro sendo refeito em meio a greve dos roteiristas, a referência ao quinto replicante passou, mas a cena não foi filmada.

"Blade Runner" foi eleito melhor filme de ficção científica de todos os tempos pela publicação especializada Total Sci-FiFoto: Divulgação

As quatro versões de Blade Runner

Versão original (1982) – Por imposição dos produtores, Ridley Scott adicionou a narração  em off de Harrison Ford e um final feliz e solar do personagem com a replicante Rachael (Sean Young), usando sobras de imagens captadas por Stanley Kubrick para a abertura de O Iluminado.

Versão internacional (1982) – Cópia com três cenas mais violentas cortadas da versão americana: a do replicante Roy perfurando os olhos de seu criador, a da replicante Pris (Daryl Hannah) segurando Deckard pelas narinas e a da mão de Roy sendo perfurada por um prego.

Versão do diretor (1992) – Alterações que mudaram completamente o filme: a supressão da narração em off e do “final feliz” e a inclusão da cena em que Deckard sonha com um unicórnio, sugerindo ele próprio ser um replicante.

Versão definitiva (2007) – Ganhou melhoria de som e imagem e ajustes nos efeitos especias — o mais significativo é a correção por computação gráfica da cena da morte da replicante Zhora (percebia-se o rosto da dublê). Também foi alterado, com nova dublagem, o número de replicantes mortos antes da caçada, agora dois em vez de um, para fechar a conta dos seis que fugiram com os quatro que precisam ser mortos. As três cenas violentas citadas voltaram.

Por GaúchaZH

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