Premiado em Cannes e em busca de uma vaga no Oscar, “A Vida Invisível” narra a história de duas fortalezas femininas

14.11.2019 | 08h15 - Atualizada em: 14.11.2019 | 11h30
Por Anna Rios
Carol Duarte (ao fundo) e Julia Stocker vivem as protagonistas

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Com arrebatadora sensibilidade sobre a condição da mulher na sociedade brasileira, filme de Karim Aïnouz estreia no dia 21 de novembro

“Uterino” e “vaginal”, segundo definições de Fernanda Montenegro, A Vida Invisível é um filme de arrebatadora sensibilidade sobre a condição da mulher na sociedade brasileira. O sexto longa-metragem do cearense Karim Aïnouz, vencedor da mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes, entra em cartaz no dia 21 de novembro e já tem data para chegar ao streaming: será disponibilizado na plataforma Amazon Prime a partir de 20 de dezembro.

A Vida Invisível pode levar Fernanda Montenegro a uma segunda indicação ao Oscar — trata-se da produção escolhida para representar o Brasil no maior prêmio da indústria, superando o fenômeno Bacurau. Os planos fechados no rosto da atriz de 90 anos, no ato final de A Vida Invisível, são desde já históricos, pela simbólica sublimação da artista que tem sido voz ativa contra a censura e pelo impacto que causam no desfecho da emocionante história de duas irmãs que vivem entre o Rio de Janeiro da década de 1950 e os sonhos de ir à Europa rumo à independência, nos anos seguintes.

Trata-se de uma adaptação do romance A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha. A despersonalização do título, no filme, é o primeiro acerto de Aïnouz, que, ao fim das contas, construiu uma narrativa não sobre uma, mas, isso sim, duas “vidas invisíveis” — a de Eurídice e também a de sua irmã, Guida.

Elas são interpretadas, respectivamente, por Carol Duarte e Julia Stockler (Fernanda aparece apenas no epílogo, após duas horas de projeção). Cúmplices nas pequenas subversões do dia a dia, como as sequências iniciais deixam claro, elas encontram uma na outra o suporte para encarar o machismo que permeia as relações sociais e mostra-se encravado na instituição familiar, algo que passa de geração a geração, como se pode constatar quando Eurídice deixa a morada dos pais para se casar (o marido, compreensivo apenas até certo ponto para com as ambições pessoais dela, é interpretado por Gregório Duvivier).

Fernanda Montenegro é destaque no elenco do filmeFoto: Divulgação

É a separação forçada de duas pessoas tão unidas que vai marcar seus destinos, como acompanhamos a partir do segundo ato. A câmera invariavelmente próxima dos corpos conforma uma geografia de suas intimidades, muito mais do que dos lugares que as irmãs habitam. Mesmo assim, o Rio de 60 e tantos anos atrás ressurge esplendoroso na reconstituição de suas ruelas, botequins e casas às subidas dos morros, sobretudo porque ao diretor interessam não os cartões-postais, mas o que esses escondem — as vidas à margem das imagens que costumam identificar esses lugares.

Aïnouz é um cineasta de longas calcados em grandes personagens, de Madame Satã (2002) a Praia do Futuro (2014), passando por O Céu de Suely (2006) e O Abismo Prateado (2011), nos quais filma com paixão jornadas intensas de homens e mulheres cujas trajetórias são capazes de transformá-las em verdadeiras fortalezas. A Vida Invisível é, entre esses filmes, aquele que tem estrutura dramática mais clássica e que mais recorre aos códigos do melodrama, o que pode ao mesmo tempo aproximá-lo de um público mais amplo e potencializar seu impacto sobre esse público.

Grandes momentos, entre os quais a iminência de um reencontro, na véspera do Natal, pontuam as jornadas paralelas de Eurídice e Guida. Elas estão invisíveis uma aos olhos da outra, mas suas presenças têm força e, graças à câmera de Aïnouz, uma digna visibilidade diante do espectador.

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