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“Doces Bárbaros” completa 50 anos

Maria Coelho Por Maria Coelho
24/06/2026
Tempo de Leitura: 5 mins
“Doces Bárbaros” completa 50 anos

Doces Bárbaros / Crédito: Divulgação

   

A Universal Music Brasil celebra os 50 anos de “Doces Bárbaros”, o álbum duplo ao vivo que registrou, em 1976, o encontro de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Neste 24 de junho, quando se completam exatas cinco décadas do nascimento dos Doces Bárbaros, a gravadora relembra este clássico que reuniu quatro dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. A homenagem faz parte do projeto Safra 76, que até o fim de 2026 lança luz sobre discos daquele ano presentes no acervo da companhia.

O disco nasceu da turnê que estreou em 24 de junho de 1976, no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, antes de seguir para o Canecão, no Rio de Janeiro, e outras capitais. Guilherme Araújo e Perinho Albuquerque assinam a produção. Caetano responde pela direção geral do show, enquanto Gil assume a direção musical. A ficha técnica ajuda a entender a ambição do projeto, mas diz pouco sobre o impacto de ver no mesmo palco aqueles quatro artistas, então com uma década de carreira que haviam transformado a música brasileira.

A história vinha de antes. “Nós, Por Exemplo”, faixa que fecha o repertório, recupera o título de um dos espetáculos apresentados no Teatro Vila Velha, em Salvador, em 1964, quando aquele grupo baiano começava a aparecer. Em 1976, Caetano e Gil já tinham vivido o tropicalismo e o exílio, Gal atravessara a explosão contracultural e Bethânia se afirmara como presença cênica maior da música brasileira. O reencontro, portanto, carregava memória, mas soava inteiramente contemporâneo.

O nome Doces Bárbaros reflete um tanto das tensões que envolviam a cena política e cultural brasileira. Ele responde, com ironia e beleza, à forma como parte da imprensa do eixo Rio-São Paulo tratava a presença baiana na cultura brasileira — o “Pasquim” os apelidou de “baihunos”, como se fossem invasores. No disco, a acusação de barbárie volta adoçada, convertida em força de invenção. No Brasil da ditadura, essa imagem tinha peso. Os quatro subiam ao palco sem transformar o show em panfleto, mas a liberdade estava ali, no corpo, no canto, na roupa, na dança, na maneira de ocupar a cena.

A abertura com “Os mais doces bárbaros” parece chegar de longe. A canção entra em fade in, como se o grupo de bárbaros estivesse vindo no horizonte para iniciar sua invasão. O arranjo, longo e circular, já anuncia uma das marcas do álbum: a repetição como transe, o rock dos anos 1970, o canto coletivo, a doçura como força de combate. Curiosidade: o título originalmente pensado por Caetano foi “Os mais doces dos bárbaros”, com preposição, mas ele foi grafado errado pela gravadora e assim se manteve ao longo das décadas.

O repertório costura tempos e linhagens. “Fé cega, faca amolada”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, aproxima os baianos do Clube da Esquina, movimento que propôs outro modo de imaginar o Brasil anos depois da Tropicália. “Atiraste uma pedra”, de David Nasser e Herivelto Martins, traz o samba-canção. Em “Pássaro proibido”, rara composição de Bethânia (em parceria com Caetano), a letra fala de perigo, cuidado e sinais nas ruas, imagens que, em 1976, encontravam eco imediato num país vigiado.

Gil leva o rock para dentro de uma mitologia afro-pop em “Chuck Berry fields forever”, canção que aproxima Chuck Berry dos Beatles e faz cruzar o rock com a diáspora negra e o machado de Xangô. Caetano cria em “Gênesis” um mito da origem do mundo, alinhando os Doces Bárbaros a uma tribo capaz de reconhecer o sagrado em tudo. Já “Tarasca guidon”, de Waly Salomão, leva o disco para o território da poesia marginal que se desenvolvia naquele período. A letra brinca com a língua portuguesa, sobretudo cruzando suas influências indígenas e africanas, com entonações interioranas, como no verso “tu tá dodia”, sobre uma base que remete a experiências do rock progressivo. Depois, a canção desemboca numa batucada de terreiro, com colagem de trechos de samba de roda.

No segundo LP, o clima muda. “Eu e ela estávamos ali encostados na parede”, parceria de Gil, Caetano e José Agrippino de Paula, narra um instante de encontro em tom descritivo — um encontro também com a paz num mundo de violência, afirmando a força política do amor. “Esotérico”, cantada por Gal e Bethânia, trata da inevitabilidade do mistério do amor. “Eu te amo”, de Caetano com citação a versos de “Boneca de piche” (de Ary Barroso e Luiz Iglesias), ganha a voz de Gal numa interpretação que expande a face lírica do álbum. Em “O seu amor”, os quatro alternam versos para deslocar o lema autoritário da ditadura “Brasil, ame-o ou deixe-o”, transformando-o numa defesa da liberdade afetiva: amar é também deixar o outro existir.

O disco segue por “Quando”, tributo a Rita Lee, artista que, à sua maneira, foi também doce e bárbara. Depois, vai para “Pé quente, cabeça fria”, com a leveza de jingle tropicalista que celebra o modo de vida “numa boa” — sem deixar de aconselhar um “meta o pau”, se necessário. “Um Índio”, na voz de Bethânia, projeta uma aparição indígena capaz de revelar “o óbvio”, remetendo à nobreza de Bruce Lee, Muhammad Ali e os Filhos de Gandhi. “São João, Xangô Menino” aproxima festa junina e orixá, celebra Dominguinhos e cita discos então recentes dos próprios artistas: “Gal canta Caymmi”, “Qualquer coisa”, “Refazenda” e “Pássaro proibido”.

Ouvido hoje, “Doces Bárbaros” preserva algo raro: a impressão de que um disco pode guardar a energia de uma noite e, ao mesmo tempo, condensar uma época. Ele fala de amizade, Bahia, religiosidade, cultura pop e desejo de liberdade sem precisar separar esses campos. Tudo aparece junto, como aparecia no palco. A capa do disco, criada a partir da foto de Orlando Abrunhosa, mostra Caetano, Gal, Gil e Bethânia deitados, com as cabeças reunidas em um centro comum — quatro artistas com silhuetas próprias formando, por um instante, uma só figura.

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