A música popular instrumental brasileira é reconhecida internacionalmente por sua riqueza estética, inovação e diversidade. Ainda assim, quando se observa quem ocupa os palcos, especialmente em festivais do gênero, a presença feminina segue sendo reduzida e invisibilizada. É a partir desse cenário que nasce O Palco que nos Deve: Mulheres e a conquista do espaço na Música Instrumental, um projeto pioneiro que articula pesquisa, memória e visibilidade para compreender e ampliar o protagonismo das mulheres nesse campo.
Idealizado por pesquisadoras catarinenses, o projeto lança uma plataforma digital que reúne dados quantitativos e qualitativos sobre a participação feminina na música instrumental brasileira, além de entrevistas em profundidade com 12 importantes musicistas de diferentes regiões do país e trajetórias diversas. A iniciativa também contempla a análise de line-ups de festivais, conteúdos audiovisuais e um documento final com os principais achados da pesquisa.
As 12 entrevistas que integram o projeto reúnem nomes de diferentes gerações, regiões e linguagens da música instrumental brasileira, compondo um retrato plural da cena. Elas trazem desde a virtuosa Léa Freire, flautista, compositora, arranjadora e uma das principais referências da música instrumental brasileira, até instrumentistas contemporâneas como a paraense Camila Alves, violonista de sete cordas, compositora e pesquisadora do choro, com carreira autoral e participação em festivais pelo país.
Também a brasiliense Larissa Umaytá, percussionista com presença nacional, reconhecida por sua atuação no samba e na música popular brasileira; e Suzete Santos, saxofonista potiguar, criadora de iniciativas voltadas à formação de jovens músicos e ao protagonismo feminino no saxofone, lançou também recentemente seu trabalho autoral no EP “Raízes Seridoenses”, reafirmando sua identidade artística no Choro e na música nordestina.
Mais do que mapear a desigualdade, o projeto busca evidenciar as estruturas que a sustentam e, ao mesmo tempo, destacar as artistas que vêm transformando esse cenário. “Uma das coisas mais especiais têm sido conhecer mais da trajetória de tantas artistas incríveis e partilhar de seus desafios, mas também de suas conquistas. Observar e admirar as suas carreiras, construídas com muita luta, mas também muita sensibilidade artística e amor à música”, afirma Caroline Cantelli, pesquisadora e coordenadora de comunicação do projeto.
“Estudando sobre o tema, conversando com as entrevistadas e reunindo dados, pude reafirmar que a sociedade não está preparada para valorizar as mulheres líderes, criativas e criadoras. Até hoje, a história da música popular instrumental brasileira tem sido narrada majoritariamente pela voz e pelo som dos homens; esse mercado musical precisa de uma profunda transformação para se renovar”, destaca Valentina Bravo, pesquisadora e idealizadora do projeto.
Ao apostar em uma abordagem que combina dados, escuta e difusão de conteúdo, O Palco que nos Deve se consolida como uma plataforma de documentação e projeção. As entrevistas, publicadas nos canais digitais do projeto (Instagram e YouTube), ampliam o acesso às histórias, processos criativos e reflexões de artistas que, muitas vezes, permanecem fora dos registros oficiais da música brasileira.
Ao reunir essas frentes, o O Palco que nos Deve não apenas denuncia uma lacuna histórica, mas atua diretamente na construção de novos imaginários sobre quem pode, e deve, ocupar o palco. Em um país cuja música instrumental é celebrada mundialmente, propostas como esta contribuem para ampliar o reconhecimento das mulheres que sustentam, renovam e reinventam essa produção artística.





