Novo documentário mostra que Woodstock pendeu entre motim e falência

Por Anna Rios
imagem público no show da abertura de Woodstock, 50 anos atrás

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É o segundo documentário sobre o evento lançado neste ano, depois de "Woodstock: Three Days that Defined a Generation"

Por GaúchaZH

(FOLHAPRESS) - Dois dias antes da abertura de Woodstock, 50 anos atrás, o jovem Joel Rosenman enfrentava um dos maiores dilemas de sua vida --precisava decidir entre terminar de construir o palco do festival ou de erguer as cercas de segurança e as bilheterias.

"Em outras palavras, me perguntaram se eu queria um motim ou a falência", lembrou ele, que financiou o evento ao lado do amigo John Roberts - dupla que passava longe dos estereótipos hippies da época. "A gente gostava de jogar golfe juntos."

O resultado foi um marco da contracultura americana, além de uma dívida de US$ 3 milhões que levou uma década para ser paga. Roberts, Rosenman e outros envolvidos nos bastidores aparecem no documentário "Creating Woodstock", exibido no Museu Grammy de Los Angeles para celebrar os 50 anos do evento.

É o segundo documentário lançado neste ano, após "Woodstock: Three Days that Defined a Generation", passar no festival Tribeca. O mais famoso, "Woodstock", de 1970, que rendeu Oscar ao diretor Michael Wadleigh, também voltou aos cinemas da cidade.

Mais de 500 mil pessoas estiveram no festival de 1969, montado numa fazenda no interior do estado de Nova York. Foram três dias caóticos e lamacentos, inspirados no espírito de paz, amor, música e drogas. Depois de performances de Joan Baez, Creedence Clearwater Revival, Grateful Dead, Janis Joplin e outros, terminou numa manhã de segunda-feira com Jimi Hendrix tocando o hino na guitarra.

A ordem de entrada dos artistas era de quem estava por perto. Dezenas de helicópteros foram contratados de última hora para conseguir transportar os músicos e, mais tarde, comida e dinheiro para as bandas que ameaçavam não tocar sem receber adiantado (como o The Who). Arlo Guthrie foi levado ao palco muito mais cedo do que esperava, completamente chapado. 

Sem poder controlar a multidão inesperada que causava quilômetros de congestionamentos, os organizadores retiraram as poucas cercas levantadas e declararam que o festival seria gratuito. Para o diretor do novo documentário, Mick Richards, uma coisa em comum entre quase todos os envolvidos era a preocupação absoluta com aqueles que chegavam para a festa.

"O planejamento, a segurança, tudo tinha a ver com a ideia de que todos deveriam ser bem-vindos", disse Richards, que passou 25 anos tentando lançar o documentário com entrevistas feitas nos anos 1990, incluindo com muitos que já morreram.

Um deles é Mel Lawrence. Morto há três anos, era o diretor de operações e contador das melhores histórias. No filme, narra como recebeu, morrendo de medo, um funcionário do Departamento de Saúde para inspecionar o local.

"Mas ele levou sua filha de 15 anos que, nos primeiros minutos de reunião, saiu pela porta e sumiu", contou. "O inspetor passou os três dias atrás da menina. Talvez, se não fosse por ela, o festival teria acabado ali." 

Rosenman, um executivo de 76 anos, é um dos donos da marca Woodstock. Ele conversou com a plateia no museu ao lado de outros colegas do festival de 1969, como John Morris, que dava recados de cima do palco ao público, como "não comam o brownie de ácido, não está bom!".

Nenhum deles se surpreende com o cancelamento do Woodstock 50, que ocorreria neste mês. "Um golpista é um golpista, que é um golpista", disse Morris, sem explicar se estava citando Michael Lang, organizador da nova edição e um dos responsáveis pela original.

Rosenman disse que Lang comprou os direitos para usar o nome e o logotipo de Woodstock, mas acabou com muitos dos mesmos problemas de 1969, como conseguir espaço para fazê-lo. Além disso, faltou o espírito da época.

"Vendemos a licença porque Michael é um parceiro nosso", disse Rosenman. "Ia ser um evento grande porque tinha grandes estrelas, mas não acho que tinha um conceito interno consistente com o sentimento do que foi o festival em 1969."

Com drogas e perrengues, festivais brasileiros tentaram recriar Woodstock

"Eram tonéis de água, não tinha outro lugar para beber. Algum engraçadinho jogou uma pedrinha de ácido", Marco Polo, vocalista do Ave Sangria, lembra o episódio de 1972, no teatro a céu aberto de Nova Jerusalém, em Pernambuco. "Quando olhei a grama, vi um verde da porra. Percebi que estava viajando. Já tinha fumado, bebido, estava muito doido. Mas teve gente que ficou de bobeira lá."

Se foi anfetamina, LSD ou outra droga sintética, ninguém vai saber. Aquele evento, a Feira de Música Experimental do Nordeste, reuniu 2.000 malucos da capital pernambucana. Eles dormiram em barracas ou ficaram acordados, segundo o cartaz, "do pôr ao nascer".

Sem saber o line-up, o Jornal do Commercio dizia só quem não iria tocar --"aqueles que fazem música comercial". O Ave Sangria --banda seminal do rock psicodélico-- fez um show com sua formação ainda embrionária na tal feira.

Mesmo com clima parecido ao do famoso evento americano, o "Woodstock pé-de-breque", como foi apelidada a festa, não chegou a ter 1% do público da versão dos Estados Unidos, que faz 50 anos agora. Foi em 15 de agosto de 1969, no auge do movimento hippie, que meio milhão de pessoas partiram para o interior de Nova York atrás de três dias de paz, amor e música --de Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Who, Jefferson Airplane, Joan Baez, entre outros.

A cultura de grandes festivais ao ar livre já era uma realidade. Em 1967, houve o Monterey Pop, também nos Estados Unidos. Em 1968, foi a vez do Ilha de Wight, no Reino Unido. O Woodstock foi o mais famoso graças ao filme homônimo de 1970, que registrou os shows e o estilo de vida da imensa plateia.

No Brasil, no fim dos anos 1960, a ditadura endurecia a repressão. Foi a época em que Gilberto Gil e Caetano Veloso, presos, tiveram de se exilar.

"Eram os anos mais pesados dos anos de chumbo", lembra Pena Schmidt, produtor musical e diretor de gravadoras. "Depois do AI-5, quem ainda tinha pudores de censura, de repressão, acabou. Era 'nós mandamos aqui, chega desse negócio de arte e música'."

Numa época de menor tráfego de informações, a cultura hippie --estabelecida nos anos 1960-- só se popularizou no Brasil no começo da década de 1970. "Todo mundo viu o filme do Woodstock, lembrou como era e tentou reproduzir", diz Schmidt. "Era meio onírico, um sonho coletivo."

A ideia envolvia uma fuga dos grandes centros --onde a repressão policial era maior-- e busca por um ambiente bucólico --para potencializar o efeitos dos alucinógenos. Os eventos duravam dias, com acampamento, pouco equipamento e música transgressora.

Um ano antes da festa pernambucana, já havia rolado o Festival de Música de Guarapari, no Espírito Santo. Com Milton Nascimento e Novos Baianos, o evento foi quase inviabilizado pelo prefeito de Três Praias e pela polícia, que barrou os hippies no local.

A expectativa era de 50 mil pessoas, mas só um décimo desse público chegou. O que ficou de lembrança foram os pulos de Tony Tornado na plateia.

Em 1973, Pena Schmidt foi à área rural de Cambé, no Paraná, para o "Woodstock pé-vermelho", ou Festival Colher de Chá. "Era palco de tábua e tronco improvisado no morrinho, um lugar cheio de eucaliptos e o camarim de lona."

"Foi um mico total. Cem pessoas? Duzentas? Não era muita gente", diz Schmidt, que era técnico de som dos Mutantes, atração principal do Colher de Chá. "Era uma tribo de pessoas chamadas de mochileiros. Eles andavam por aí de carona e frequentavam esses lugares."

Quase todas as tentativas brasileiras de reproduzir Woodstock tinham o mesmo clima --banho de rio, mar ou cachoeira, nudez, maconha e entraves com a polícia.

"Eram coisas marginais, contravenção mesmo. Polícia não tolerava", comenta Schmidt. "Vários 'dançaram' porque estavam fumando [maconha]."

Uma das empreitadas mais bem-sucedidas foi o Festival de Águas Claras, em Iacanga, em São Paulo. Leivinha, com 22 anos em 1975, idealizou o encontro e o promoveu no boca a boca. Retratado no documentário "O Barato de Iacanga", o festival reuniu 10 mil pessoas na primeira edição.

Lá, a polícia foi leve na repressão, mas acabou fazendo um relatório sobre o que   acontecia na fazenda. Isso levou ao cancelamento do festival, que só voltou em 1981, já com alguma fama entre o público.

O Festival de Águas Claras retornou mais organizado  e teve edições até 1984, com shows de Raul Seixas, Alceu Valença, Jards Macalé, Jorge Mautner e Luiz Gonzaga. Até João Gilberto cantou para os cabeludos.

Tuca Borges tinha 16 anos em 1976, quando ficou sabendo do Woodstock paulista. "Não existia internet, mas os fanzines circulavam nos grupos e festas", diz ele. Naquele ano, o jornalista Nelson Motta se esforçava para criar um Woodstock fluminense. O Som, Sol & Surf, que rendeu documentário homônimo, levou a Saquarema, no Rio de Janeiro, um campeonato de surfe --tendência na época-- e shows.

Também rendeu um rombo financeiro a Motta, quando um investidor abandonou o projeto. O mesmo problema levou ao cancelamento da edição de 50 anos do Woodstock, que aconteceria nesta semana nos Estados Unidos com Jay Z e Miley Cyrus, entre outros.

"Era fumo, LSD, álcool, 'bola'. Misturava tudo e ficava muito doido", conta Paulo Malta, que tinha 17 anos e era da turma dos surfistas. "Estouraram o portão e invadiram, porque não tinha ingresso. Não tinha água no bar, não tinha pão."

Do mesmo jeito que em Águas Claras, os hippies chegaram aos montes e esgotaram os estoques de Saquarema --o lugar recebeu o triplo da população de 7.000 habitantes.

Helio Pitanga, diretor de "Som, Sol & Surf", conta que Rita Lee, a grande estrela, chegou de helicóptero sem ter onde pousar. "O piloto era um cara que passava de teco-teco fazendo anúncio na praia", ri.

Segundo Pena Schmidt, hoje existem centenas de festivais deste tipo pelo Brasil, do Psicodália, em Santa Catarina, ao Morrostock, no Rio de Grande do Sul. Até mesmo o SWU, que em 2010 e 2011 reuniu artistas como Kanye West e Sonic Youth em Itu, no interior paulista, era tratado como mais um Woodstock brasileiro.

"Existe uma organicidade no formato", analisa Schmidt. "Não foi uma estratégia de marketing. Aconteceu porque estava maduro, tinha o espírito aventureiro e o mito da liberdade --que vinha dos beatniks e dos hippies. É o que chamam de 'zeitgeist'."

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